Chico Xavier
Francisco Cândido Xavier · 1910 — 2002
Francisco Cândido Xavier, Chico Xavier, ou simplesmente Chico, foi uma das mais cativantes personalidades do século passado. Deixou-nos no limiar do século atual.
Chico, na extensa caminhada de sua existência, percorreu toda uma centúria, distribuindo amor e exemplos de caridade, renúncia, trabalho e dedicação plena ao semelhante. Seguiu, em toda a extensão do seu significado intrínseco, o mandato maior que Jesus nos legou.

Memórias em fotografias








A grandeza da simplicidade
Não é fácil falar de criaturas simples, porque a simplicidade traduz em si mesma a grandeza d’alma, a humildade e, de modo muito particular, no caso específico de Chico Xavier, está ela interligada à vastíssima e milenar cultura.
Sua cultura foi, ao meu modo de ver – por tê-lo conhecido e com ele convivido por longo tempo –, o resultado de longa caminhada pelos milênios aqui na Terra. E, por que não dizer, de anteriores vivências em algum lugar do firmamento distante.
Não fora por suas virtudes, que muito resumidamente menciono acima, como explicaram-se as manifestações de carinho e afeição de parte da comunidade brasileira – de todas as religiões – a alguém que, desde criança, manifestou intensa ligação com os chamados fenômenos mediúnicos, com visões, vozes, escritos de evidente inspiração espiritual, faculdades sedimentadas aos 17 anos, de tal forma a ser unanimemente considerado maior médium de todos os tempos?
Duas terças partes do povo brasileiro reconheceram um exemplo de esperança e de amor na Terra, conforme pesquisa da revista Veja, no início de 1966.
Por que assembleias legislativas e câmaras municipais de todo o país lhe dedicaram mais de 100 cidadanias honorárias, senão pela sua laboriosa atuação no terreno do bem e do amor do próximo?
Ressalta-se que pelo seu trabalho na seara do bem, pela sua dedicação aos sofredores de todos os matizes, pelo significado de sua mensagem inspirada em 1981, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por 10 milhões de brasileiros.
O seu estado natal, com as igrejas tradicionais incrustadas nas faldas das colinas dos burgos mineiros, divulgando, segundo os respeitáveis cânones do catolicismo, os ensinamentos de nosso mestre Jesus, honrou-o com o título de Mineiro do Século em votação promovida pela Rede Globo de Minas Gerais na virada do milênio, precisamente a 15 de novembro de 2000. Nesse interessante pleito, Chico Xavier superou a votação de expressivos mineiros com Santos Dumont, Carlos Drumond de Andrade e o popular Pelé, obtendo cerca de 705.000 votos, 2.500 a mais que Santos Dumont.
Chico Xavier, de formação católica, tornou-se o ponto de referência do Espiritismo, codificado em meados do século XIX na França por Kardec, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, e destacou sempre, com absoluta coerência e respeito pela religião de berço, a importância de todas as religiões que profligam, no bom combate, em essência, o materialismo, que não consola.

A menor das crianças, a maior das provações
Aos 5 anos, perdeu sua mãe, Maria de São João de Deus, cujo falecimento deixou o pai, João Cândido Xavier, o humilde operário em Pedro Leopoldo, viúvo, com nove filhos, sendo Chico o caçula.
O genitor, em desespero, distribuiu, temporariamente, os filhos, e anos mais tarde ocorreria novo casamento com Cidália Batista, a segunda mãe de Chico, senhora boníssima, mas que logo deixaria por falecimento precoce, esposo, filhos e uma família enriquecida por mais seis crianças.
Enquanto ficou na casa da madrinha Rita de Cássia, o rigor dessa senhora, a quem Chico sempre endereçou palavras de agradecimento e respeito, cumulou-o de garfadas no abdome e o fez lamber feridas de outra criança, o Moacir, para curá-lo. Lambendo-as por três sextas-feiras, Chico efetivamente as curou, recordando-nos o milagre da Rainha Santa Isabel de Aragão, a Santa Isabel reverenciada pelos católicos, de modo especial na Península Ibérica e no Brasil.
Devo destacar que o temperamento da madrinha permitiu ao Chico reencontrar a mãezinha tão amada, Maria de São João de Deus, que em espírito aparecia-lhe no quintal da casa, à sombra das bananeiras, aconselhando-o a respeitar a mãe adotiva e a confiar em Deus, pois que, com o tempo, ele e os irmãos teriam uma segunda mãe amorosa e amiga.
Não pôde frequentar a escola como desejava, cursando apenas, e com dificuldade, os primeiros anos de letras, devido ao trabalho duro e implacável que renteava às altas horas da noite para ajudar no magérrimo orçamento familiar.
Trabalhou dos 8 aos 12 anos numa fábrica de tecidos enquanto frequentava o curso primário. Dos 12 anos aos 19, no comércio, e aos 21, em 1931, ingressou na Fazenda Modelo de Criação do Ministério da Agricultura em Pedro Leopoldo, pelas mãos de seu diretor, Dr. Rômulo Joviano.
Já, então, na condição de funcionário público federal, trabalhou até a sua aposentadoria, com singular exemplo de assiduidade.
Uma catadupa de luzes
Sua primeira mensagem psicografada ocorreu a 8 de julho de 1927, e a partir de 1931, com a supervisão espiritual explícita de Emmanuel, seu benfeitor espiritual, suas atividades mediúnicas, que se haviam iniciado de modo mais regular em 1927, ganharam notoriedade com o lançamento de Parnaso de além-túmulo, obra poética assinada por vates respeitáveis do Brasil e de Portugal, composta de poemas que bravamente resistiam à crítica literária, que, atônita, viu, pelas mãos de um mineiro simples, até então desconhecido, descer ao nosso mundo uma catadupa de luzes, sob a inspiração de conhecidos poetas patrícios e de além-mar.
Surgiu uma sucessão de livros, romances, crônicas, mensagens, poesias, cerca de 464 obras, cujo número aumenta paulatinamente com trabalhos póstumos que estão surgindo, quais escrínios guardados por amigos do saudoso Chico e que começam vir a lume.
Todos os livros tiveram seus direitos autorais doados por Francisco Cândido Xavier a editoras espíritas que, além de divulgá-los, sem o objetivo de lucro, deveriam obrigatoriamente, e o fazem, destinar recursos a tarefas de cunho filantrópico, investindo em orfanatos, asilos, creches e atividades outras de solidariedade a populações carentes de nosso país.
Foi como se o céu dos espíritas subitamente se povoasse de novas estrelas – as instituições beneficentes, que se multiplicavam enfatizando uma das características das atividades da doutrina: a preocupação com o semelhante, com suas dificuldades materiais e espirituais, com os padecimentos físicos e as dores da alma.
Milhares de milhares de famílias que perderam entes queridos receberam, por décadas, mensagens dos familiares que partiram e puderam encontrar o norte perdido pela dor ingente, que as lágrimas testemunhavam nas reuniões públicas de Pedro Leopoldo e Uberaba.
Quem observasse Chico Xavier lendo essas mensagens após recebê-las notaria comovido que as lágrimas inestancáveis rolavam dos olhos cansados e lhe embargavam a voz, nos últimos tempos já mais fraca e cansada.
Muitas dessas mensagens fazem parte de livros que compõem o vasto acervo produzido pelo médium, cuja produção editada atinge os 25 milhões de exemplares, dos quais Chico nunca recebeu um único centavo.
Nosso Lar, sua obra mais vendida, já supera a tiragem de 1 milhão e meio, e as edições de seus livros em inúmeros idiomas se multiplicam.

Noite adentro, a serviço do próximo
A mudança em janeiro de 1959 para Uberaba não alterou o rumo de sua vida de sacrifícios, não obstante a merecida aposentadoria como funcionário público federal ligado ao Ministério da Agricultura, que viria a ocorrer em 1961.
Continuou a dedicar-se integralmente ao semelhante e à vivência do Evangelho, mergulhando noite adentro no exercício das tarefas que abraçara e que nada neste mundo conseguia sobrestar.
Sempre dormiu pouquíssimo e, se necessário, atendia aos que o procuravam até o sol nascer. Isso ocorria nas reuniões públicas de Pedro Leopoldo e Uberaba, nas viagens pelo país, quando do recebimento dos títulos de cidadania, e nas tardes e noites de autógrafos, muitas das quais presenciei, vendo o Chico despedir-se de cada pessoa com uma rosa na mão e nos lábios o sorriso amigo, iluminado pelas clarezas da aurora na manhã do novo dia que se iniciava.
Havia uma particularidade no Chico que muitos dos que dele se acercaram puderam observar – o perfume que dele transcendia, com intensidade variável e aromas diferentes.
Não era perfume em hipótese alguma de origem terrena, elaborado com nossas flores ou com fragrância de alfazema, e sim decorrente da presença constante, junto dele, de espíritos iluminados, como Scheilla, que o envolviam na atmosfera perfumada a evidenciar sua estatura espiritual. Era o perfume de sua alma.
Nas preces, com a presença dele, se colocássemos garrafas de água para beber, o líquido incolor dos recipientes se perfumava e adquiria, por vezes, coloração branca, como a neve mais pura das geleiras árticas. O mesmo ocorria com lenços que se colocavam em suas mãos. Ele os devolvia com perfume tão intenso e em tanta quantidade que ficavam molhados, gotejando. Ainda guardo em casa um lenço perfumado nessas condições há 40 anos.
Em seus comparecimentos frequentes na televisão, soube cativar os lares que ouviam atentamente sua mensagem de paz e esperança. A apresentação que marcou sua longa convivência com a televisão brasileira deu-se em 1971, no célebre Pinga-Fogo da TV Tupi de São Paulo, após o que Chico Xavier ocupou espaço em horários nobres, sempre com destacada audiência nos principais programas da TV brasileira.
Lembro-me de que Chico, no Pinga-Fogo, então com 61 anos, submeteu-se a perguntas de telespectadores e de um seleto grupo de personalidades do mundo cultural e meio jornalístico da época. Os lares brasileiros, magnetizados, ouviram-lhe as ponderações a respeito de temas que estavam em evidência no início da década de 70.

Viveu e morreu como um justo
Deixou-nos aos 92 anos, no início da noite de 30 de junho de 2002, do mesmo modo que sempre viveu, sem dar trabalho a ninguém, sem demonstrar sofrimento ou qualquer ansiedade. Partiu para os céus, para sua pátria espiritual, sorrindo como a nos dizer: “Amados amigos, eu os amo muito. Obrigado por tudo de bom que de vocês recebi. Se me permitirem, peço-lhes: amem-se uns aos outros como o Senhor nos amou”.
Chico viveu e morreu como um justo, uma alma amiga, uma criatura despojada de valores outros, que não sua simplicidade ou respeito a Deus. Sofreu com sofrimento, sem, contudo, esconder-nos o seu sorriso generoso, amigo de quem sempre estava de bem com a vida.
São Bernardo do Campo, 30 de junho de 2008.

As obras mais importantes de Chico Xavier
Uma seleção dos títulos psicografados por Chico Xavier, organizados pelos espíritos autores, além das obras publicadas pela Vinha de Luz Editora.
Primeiras obras e antologias
- Parnaso de além-túmulo (Espíritos diversos, 1932)
- Cartas de uma morta (Maria de São João de Deus, 1935)
- Antologia dos imortais (Espíritos diversos, 1963)
- Poetas redivivos (Espíritos diversos, 1969)
Romances históricos, e outros, de Emmanuel
- Há dois mil anos (1940)
- 50 anos depois (1940)
- Paulo e Estêvão (1942)
- Renúncia (1943)
- Ave, Cristo! (1953)
- A caminho da luz (Emmanuel, 1939)
- Roteiro (Emmanuel, 1952)
Série Evangelho, de Emmanuel
- Caminho, verdade e vida (1949)
- Pão nosso (1950)
- Vinha de luz (1952)
- Fonte viva (1956)
- O livro da esperança (1964)
- Palavras de vida eterna (1965)
- Segue-me!… (1973)
- Ceifa de luz (1979)
Obras atribuídas ao espírito André Luiz
- Nosso Lar (1944)
- Os mensageiros (1944)
- Missionários da luz (1945)
- Obreiros da vida eterna (1946)
- No mundo maior (1947)
- Agenda cristã (1948)
- Libertação (1949)
- Entre a Terra e o Céu (1954)
- Nos domínios da mediunidade (1955)
- Ação e reação (1957)
- Evolução em dois mundos (1959)
- Mecanismos da mediunidade (1960)
- Opinião espírita (1963) — em parceria com Emmanuel
- Sexo e destino (1963)
- Desobsessão (1964)
- Estude e viva (1965) — em parceria com Emmanuel
- E a vida continua… (1968)
- Sinal verde (1971)
- Respostas da vida (1975)
- Busca e acharás (1976) — em parceria com Emmanuel
- Mensagens de luz (1978)
- Endereços de paz (1982)
- Cidade no além (1983) — em parceria com o espírito Lucius
- Apostilas da vida (1986)
- Ação e caminho (1987) — em parceria com Emmanuel
- A verdade responde (1990)
- Tempo e nós (1993)
- Antes da prece (2020)
Livros atribuídos ao espírito Neio Lúcio
- Mensagem do pequeno morto (1947)
- Alvorada cristã (1949)
- Jesus no lar (1950)
- A vida fala I, II e III (1973)
- Sementeira de luz (2006)
- O elogio da abelha (2007)
- A lição inesquecível (2007)
- O remédio imprevisto (2007)
- O burro de carga (2007)
- O aprendiz desapontado (2008)
- A galinha afetuosa (2008)
- O carneiro revoltado (2008)
- O poder da gentileza (2008)
- Pérolas de sabedoria (2009) — em parceria com Emmanuel
- Sementeira de paz (2010)
- Colheita do bem (2010)
- Instruções para a vida (2018)
- Sintonia de amor (2023)
- Lições do Invisível (2025)
Obras assinadas como Humberto de Campos
- Crônicas de além-túmulo (1937)
- Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho (1938)
- Novas mensagens (1940)
- Boa Nova (1941)
- Reportagens de além-túmulo (1943)
- No roteiro de Jesus (2008)
Obras assinadas como Irmão X
- Lázaro redivivo (1945)
- Luz acima (1948)
- Pontos e contos (1951)
- Contos e apólogos (1957)
- Contos desta e doutra vida (1964)
- Cartas e crônicas (1966)
- Estante da vida (1969)
- Relatos da vida (1988)
- Histórias e anotações (1989)
Livros publicados pela Vinha de Luz Editora
- Sementeira de luz (Neio Lúcio, 2006)
- Deus conosco (Emmanuel, 2007)
- Militares no além (Espíritos diversos, 2008)
- Iluminuras (Emmanuel, 2009)
- Pérolas de sabedoria (Emmanuel / Neio Lúcio, 2009)
- Sementeira de paz (Neio Lúcio, 2010)
- Chico Xavier – O primeiro livro (Espíritos diversos, 2010)
- Colheita do bem (Neio Lúcio, 2010)
- Luz na Escola — Chico Xavier na Escola Jesus Cristo de Campos | RJ (Espíritos diversos, 2010)
- Chico Xavier — O médium dos pés descalços (Emmanuel / Chico Xavier, 2011)
- Lições para Angelita (João de Deus, 2012)
- Chico Xavier — A aurora de uma vida entre o céu e a Terra (Espíritos diversos, 2012)
- Depois da travessia (Espíritos diversos, 2013)
- Chico Xavier com você (Emmanuel / Chico Xavier, 2013)
- Militares com Jesus (Espíritos diversos, 2013)
- Registros imortais (Espíritos diversos, 2013)
- Obras da fé (Espíritos diversos, 2014)
- Palavras sublimes (Espíritos diversos, 2014)
- A saudade é o metro do amor (Clóvis Tavares, 2015)
- Cartas do Alto (Espíritos diversos, 2017)
- Instruções para a vida (Neio Lúcio, 2018)
- Sintonia de amor (Neio Lúcio, 2023)
- Lições do Invisível (Neio Lúcio, 2025)
- Vozes do Espírito — O índice atualizado das mensagens recebidas por Chico Xavier (Org. Isaac Valerio, 2026)

Obrigado, Chico
Obrigado por cada lágrima enxugada, por cada coração consolado, por cada palavra de Emmanuel, André Luiz e tantos outros irmãos espirituais que, através de suas mãos generosas, vieram acender em nós a esperança da imortalidade.
Obrigado por nos ensinar — em silêncio, por décadas — que a maior força do mundo se chama amor, e que a maior sabedoria se chama humildade.
Obrigado, Chico, por sua vida.